Pra começo de conversa, eu não vou falar sobre Ragnarok*.
Lendo as notícias de hoje, eu li uma informação que me chamou muita atenção, sobre o zagueiro Aislan, um jovem de 19 anos que joga no São Paulo e neste ano de 2008 será promovido das categorias de base para o time profissional. A notícia é a seguinte, que o Milan fixou com o São Paulo a opção de compra do jovem zagueiro para o mês de junho, em uma negociação intermediada pelo ex-jogador de ambas equipes, Leonardo, ou seja, o Milan terá preferência na compra do jogador e em junho decidirá se fica com ele ou não.
Aislan tirando fotos com fãs nos EUA, quando o São Paulo foi campeão da Dallas Cup, o mais importante torneio de juniores do mundo
Não acredito que a negociação saia nos moldes como divulgaram, até porque não vi o São Paulo se pronunciar sobre o assunto e também porque duvido que o Aislan seja vendido assim, tão facilmente. Ele surgiu na Copa São Paulo do ano passado e formava a dupla de defesa com Breno, que foi vendido por 18 milhões para o Bayern de Munique, inclusive, além de ser o capitão do time, foi um dos jogadores que mais chamaram a atenção da imprensa e da torcida, mais até que o próprio Breno. Mas não foi desta vez que o São Paulo o promoveu, deram a chance ao Breno, mas todos diziam que ele era uma grande aposta do São Paulo e um dos jogadores que teriam um futuro promissor. Agora em 2008, ele foi chamado para o time profissional e tem o seu passe estipulado em 3 milhões de dólares, valor baixíssimo para os clubes internacionais. Mas como o São Paulo nunca foi de vender as suas revelações tão rapidamente, não é agora que o time tem dinheiro em caixa, que irá vender uma das maiores promesas do time por um valor tão baixo.
Mas não é sobre o Aislan que eu quero falar, aproveitando o gancho, posteriormente eu vou fazer um post sobre ele, falando sobre o surgimento de ídolos para os torcedores.
O que me chamou atenção foi como grandes ídolos se queimam fácil e porque alguns torcedores as vezes tem razão quando os chamam de mercenários, de traíras, de mascarados…
No Brasil colonial existiam alguns tipos de escravos, como os boçais, os crioulos e os ladinos. Os ladinos eram os negros aculturados, que se adaptavam facilmente à cultura do homem branco, então trabalhavam diretamente na Casa Grande, pois falavam português, sabiam se relacionar, eram sociáveis, tinham habilidade com as tarefas domésticas, eram praticamente integrantes da família. Mas no fundo, eram escravos como os outros.
E então eu me pergunto, porque tem ídolo do futebol que se porta como um ladino?
Eu não tenho nada contra o jovem humilde ou ídolo consagrado que vai jogar na Europa. Muitos passaram uma infância que só eles sabem como foi difícil, a maioria mal sabe ler e escrever, o que dirá entender algo além de uma bola. Por isso, acho que eles estão certos quando deixam o Brasil, para ganhar dinheiro na Espanha, na Itália, na Ucrânia ou seja lá onde for. Eu sei que muitos gostariam de ficar, porque são torcedores de verdade dos seus times, como o Aloísio é do São Paulo, o Ronaldo é do Flamengo…, mas o dinheiro fala mais alto em alguns momentos e eles tem toda razão em ir embora.
Mas o que me deixa indignado é aquele cara que sai daqui admirado por todos, super consagrado, vira ídolo lá fora também, ganham cultura, enchem os brasileiros de orgulho, mas que nunca mais voltam para mudar o que tem de ruim por aqui, só sabem reclamar do que acontece no país ou se aproveitar da situação. Meio que renegando e cuspindo em cima de tudo o que viveu e conquistou por aqui. Não falo exclusivamente de um ou outro jogador, eu falo de dezenas de ex-atletas que foram ídolos e que hoje em dia se esqueceram do que viveram no Brasil. Estão rasgando páginas de suas belíssimas histórias por dinheiro, deslumbramento, ego…
Por exemplo o Leonardo, foi ídolo de um dos maiores times do Flamengo, foi ídolo de um dos maiores times do São Paulo, foi ídolo no Valencia, foi ídolo no Paris Saint-Gemain, foi ídolo no Japão, foi ídolo no Milan, foi ídolo na Seleção Brasileira, ganhou uma Copa do Mundo, foi campeão de tudo que disputou, criou a sensacional Fundação Gol de Letra, ou seja, Leonardo é ídolo por completo, é quase um herói.
E então, após se aposentar, ele vira dirigente do Milan. Aí começa a parte chata.
Como todos sabem, se o Milan é quase uma filial do São Paulo e uma mini seleção Brasileira, Leonardo tem grande participação nisso, afinal, é ele que intermedia as negociações com os jogadores brasileiros, apontando quem são as novas revelações e o que surge de novo aqui no Brasil. Então, aparece essa notícia que o Aislan pode ir para o Milan e eu vejo nos fóruns de torcedores são paulinos, dezenas de tricolores xingando o Leonardo, chamando o grande ídolo de mercenário, de traíra, de mascarado…
Oras, que culpa tem ele, se ele alcançou um cargo na Europa cujo papel é fazer isso que todo torcedor odeia? Eu não vejo problema nenhum, é uma opção pessoal e que deve ser respeitada. O que eu não gosto e fico indignado, é que os jogadores depois que vão pra Europa, esquecem que são brasileiros, que por mais milionários que eles estejam, que por mais idiomas que eles dominem, que por mais amigos e influência que eles tenham na Itália, na Inglaterra, na Espanha e etc., ou que por mais nacionalidades que eles tenham conquistado, eles são brasileiros, estão apenas cumprindo um papel, assim como os escravos ladinos. Como disse anteriormente, não sei se por ego ou por deslumbramento, eles se sentem legítimos parisienses, londrinos, berlinenses…
E não é só o Leonardo que assumiu esse papel de mercador do futebol, tem o Gilmar (ex-goleiro do Flamengo e do São Paulo), o Paulo Sérgio (ex-jogador do Corinthians) e mais alguns outros…
Não há nada errado em querer ganhar dinheiro, mas em alguns casos, existe um claro aproveitamento da situação para benefício próprio, e muitas vezes prejudicando o clube que deu tudo o que ele tem hoje, inclusive a chance de ir pra a Europa e se achar um europeu. Aí o ex-jogador dá uma entrevista para os jornalistas brasileiros, metendo o pau nos clubes brasileiros, que eles não são nem a metade que os clubes europeus são, que a história do Santos não chega aos pés da história do Real Madri, que jogador brasileiro é barato porque não são adaptáveis ao futebol europeu como são os argentinos, que aqui só tem bagunça e desordem, só faltando dizer que somos um lixo.
E essas coisas me deixam indignado. Pisam em seu próprio povo, em quem os colocou no patamar que estão hoje. Eles não tem amor próprio, pois pisam em sua própria história. Como diria Millôr Fernandes, “Quem se cuva aos poderosos, mostra o traseiro aos oprimidos”, acho que essa frase ilustra bem a situação.
Porque ao invés de tanto reclamarem, eles não fazem aqui, o que fazem lá? Porque se comportam como ladinos, que se aculturaram facilmente e renegam a sua história? Será que vale a pena, fugir da realidade ao invés de transformá-la?
Não podemos reclamar de nossa situação, se não fazemos nada para melhorarmos. Se os capacitados que podem mudar alguma coisa se “ladinam” para o outro lado, aí é que a coisa está perdida mesmo. Não é uma questão de oportunidade, de aprender novas culturas, de respeito ao profissional, é questão de amor próprio, de respeito com a sua história e suas tradições. É questão de vida ou morte. Porque os que aqui estão, poucos farão diferença e os que fazem, ainda são muito poucos, é fundamental a ajuda de quem pula para o outro lado.
Acho que em alguns momentos eu sou sonhador demais ou quero enxergar o que é impossível, mas quem não honra o seu povo, se aproveita dele em benefício próprio e prefere o caminho mais fácil para se dar bem ao invés de tentar melhorar o que está ruim e errado, me deixa indignado. É tristíssimo.
* Citei Ragnarok, porque ladino é um termo do jogo que nada tem a ver com o tema do post.
